Pela honra do Futebol português

13 de Janeiro de 1924. Depois da visita do Nuselsky de Praga, que havia ganho por 11-0 ao Império e 2-0 ao Benfica sendo derrotado depois pelo Sporting por 2-0, foi a vez do famosíssimo Sparta de Praga se deslocar a Portugal para realizar vários jogos. Na altura os checos granjeavam de um prestígio quase inigualável na Europa e a sua visita constituía uma oportunidade única de ver Futebol da mais fina estirpe.

Nas primeiras partidas os campeões checos não deixaram os seus créditos por “pés” alheios, triunfando por 5-0 frente ao Império e 6-0 contra o Benfica. Seguiu-se a disputa frente ao campeão de Portugal, o Sporting.

Nessa tarde os leões (orientados por Augusto Sabbo) alinharam com: Cipriano (na foto); José Leandro e Jorge Vieira; Joaquim Ferreira, Filipe dos Santos e Henrique Portela; Torres Pereira, Jaime Gonçalves, Francisco Stromp, João Francisco e Emílio Ramos.

O jogo foi algo tumultuoso mas os leões conseguiram um empate que perdurou na memória de muitos durante anos como grande proeza, conseguida, segundo o “Sport de Lisboa”, “sem favores da arbitragem e com grande alma”.

A 1ª parte foi esplêndida. O Sporting, com muito querer, fez os checos “cheirarem” constantemente a bola. Aos 4 minutos Torres Pereira fez o 1-0 de tiro sesgado a que se seguiu uma ovação delirante. Os homens de leste reagiram de pronto mas o terreno parecia um lago o que dificultava a ação das equipas. No entanto, os voluntariosos médios sportinguistas ganhavam muitas bolas. Aos 11 minutos surgiu o empate num belo remate sem defesa possível para Cipriano e logo a seguir o Sporting perdeu um golo quase feito por João Francisco. Alguns minutos mais tarde o árbitro marcou penalty por mão de Jorge Vieira, “que só pretendia defender-se de uma bolada”. Cipriano ainda defendeu, mas na recarga os visitantes fizeram o 2-1…

A 2ª parte começou ao estilo da 1ª. Logo de início João Francisco acertou um belo tiro no poste. Entretanto Victor Gonçalves, o árbitro, marcou um penalty a favor dos leões que gerou grande confusão. O guarda-redes checo recusou a decisão e não dava a bola a ninguém! O árbitro, desesperado, procurou um intérprete para comunicar com os visitantes mas não encontrou ninguém que o pudesse ajudar, pelo que se limitou a dar o jogo por terminado. A partida ficou suspensa até que Júlio de Araújo (dirigente leonino), quando a tarde já caía, entrou em campo e “contou os passos” para a marcação do penalty. Dois outros indivíduos, não identificados, imitaram-no. 20 minutos depois Salvador do Carmo ofereceu-se para apitar o jogo e a partida lá recomeçou finalmente. O que “não estava escrito” era Filipe dos Santos marcar o penalty para fora… Os checos riram-se do mais puro gozo, enquanto o público irritado gritava “fora… fora…”. Entretanto, o guarda-redes suplente checo, que alinhava como fiscal de linha, teve de entrar em jogo por lesão do guardião titular em resultado da carga sofrida pelos avançados do Sporting após a marcação do penalty…

No resto do jogo houve “mosquitos por cordas”. Joaquim Ferreira foi expulso por agressão e o defesa-esquerdo checo também (pelo mesmo motivo), só que Filipe, que o agredira, ficou em campo. Finalmente Jaime Gonçalves fez o 2-2 “em circunstâncias tais que atrás da bola entraram ele e um checo aos cachações e a rebolar no solo!”

No final registou-se um magnífico empate 2-2. Entre os sportinguistas, “Cipriano esteve em grande tarde, que o define como guarda-redes. Jorge esteve igual a ele próprio, Filipe utilíssimo, Joaquim Ferreira oportuno e decidido, Torres Pereira numa condição superior. Todo o 11 jogou com alma”.

Curiosamente, por esta altura, o magnífico interior Jaime Gonçalves, que apesar de jovem já há longos anos alinhava na categoria de honra do Sporting, ameaçou seriamente “bater com a porta”, devido ao facto de em certa ocasião o técnico Augusto Sabbo o ter acusado de individualista e de com essa postura prejudicar o grupo. Felizmente tudo não passou de um pequeno “arrufo” e o talentoso Jaime continuou a espalhar o “perfume” do seu Futebol pelos campos lisboetas, e não só.

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