“Vingança com juros” frente ao FC Porto

17 de Junho de 1923. Na meia-final do Campeonato de Portugal surgiu um escaldante Sporting-FC Porto, quando ninguém havia esquecido ainda as incidências da época anterior (a 1ª final da competição, ganha pelos azuis e brancos). O jogo teve lugar no Campo de Insua dos Ventos, em Coimbra.

As idas a Coimbra foram sempre acontecimentos especiais. Os desafios de futebol quase se perdiam na atmosfera estudantil, em rituais de capas e batinas e muitas ovações ao seu adorado Baco! De Lisboa e Porto rumaram vários comboios especiais com largos milhares de adeptos, e os portistas surpreenderam quando das bancadas do recinto desfraldaram bandeiras de todos os tamanhos e feitios.

Os jogadores do Sporting ficaram no hotel até à hora do desafio, em sofrimento, perante um jogo que poderia comprometer toda uma época de sucesso. Os nervos entre os leões eram mais que muitos, pois tinha grande dimensão a vontade de “vingar” a derrota da época anterior. Seria uma final antecipada…

Curiosa também a união entre lisboetas. Cândido de Oliveira, capitão do Casa Pia, chegou a massajar alguns futebolistas leoninos antes do jogo. Mas a união não foi só entre lisboetas, pois Coimbra tinha, também, o “coração verde”. A Académica ofereceu aos jogadores do Sporting as suas capas para que com elas entrassem em campo, o que se repetiu à saída.  O entusiasmo entre todos era enorme, e o jogo lá começou, sob a arbitragem de Todd (que viera da Madeira com a equipa do Marítimo). Orientados por Augusto Sabbo, os leões alinharam com: Cipriano; Joaquim Ferreira e Jorge Vieira; José Leandro, Filipe dos Santos e Henrique Portela; Torres Pereira, Jaime Gonçalves, Francisco Stromp (cap), João Francisco e Emílio Ramos.

O Sporting demorou um pouco a assentar jogo, mas João Francisco, após passe primoroso de Francisco Stromp, fez o 1-0 aos 23 minutos. A assistência aplaudiu delirante. Joaquim Ferreira e Jorge Vieira, os defesas leoninos, estavam imperiais, num jogo com alguma violência. Já na 2ª parte surgiu o melhor golo da tarde. João Francisco passou para o centro e Stromp abriu para a meia-esquerda. Torres Pereira centrou, Francisco Stromp ultrapassou Bastos e fez o 2-0 – uma jogada fantástica.

O FC Porto continuou a lutar, mas não mostrava argumentos. Entretanto João Francisco foi derrubado na área mas o árbitro perdoou o penalty aos portistas. Pouco depois, o mesmo João Francisco (endiabrado) atirou ao poste. A certa altura Torres Pereira fez um centro magnífico. Lino segurou a bola, mas João Francisco e Francisco Stromp levaram-no com ela pela baliza dentro. O árbitro considerou legal o golo – era o 3-0.

O domínio do Sporting acentuava-se cada vez mais, mas as oportunidades surgiam de parte a parte. O final chegou com uma vitória leonina por 3-0 numa equipa onde Jorge Vieira e Francisco Stromp foram os melhores. Segundo o jornal “Sport Lisboa”: “O Sporting demonstrou mais técnica e harmonia no seu futebol, onde todos os setores se mostraram bem ligados”.

Após algum descanso, Francisco Stromp (na foto de arquivo) mostrava-se muito satisfeito: “Foi um belo jogo, uma desforra em forma, mas o árbitro prejudicou-nos enormemente. Devíamos ter vencido por muito mais. 5-0 teria sido mais justo perante um público muito correto. Na final tentaremos vencer, mas com nobreza, correção e lealdade. Coimbra merece-nos tudo isso e ainda mais”.

Depois foi a festa, com cantigas ao desafio. Na liça surgiria Ribeiro dos Reis, que estivera em Coimbra em representação da União Portuguesa de Futebol.

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