1919 – Campeões Regionais de Futebol pela 2ª vez, num cenário de filme de cowboys

20 de Julho de 1919. No Campo Grande, 2º jogo da finalíssima a duas mãos entre Sporting e Benfica para decidir o Campeonato Regional. Os leões tinham vencido em “casa” do rival por 1-0, pelo que a vantagem estava do seu lado.

O campo do Sporting estava completamente lotado e antes de se iniciar o jogo já se percebia a tensão no ar. Segundo a imprensa da época, ainda antes do prélio começar, 2 espetadores trocaram algumas bofetadas que não tiveram consequências de maior… logo a seguir outra cena de pugilato se desenrolou, “obrigando” um guarda a puxar da sua arma e a atingir alguém, a quem abriu a cabeça!…

A equipa do Sporting: Quintela; Amadeu Cruz e Jorge Vieira; Joaquim Caetano, Artur José Pereira e Boaventura da Silva; Torres Pereira, Francisco Stromp, José Rodrigues, Perdigão e Marcelino.

A partida propriamente dita foi uma verdadeira sucessão de jogo violento, com agressões e insultos de fora para dentro, de dentro para fora e no próprio campo, entre os jogadores. Viveu-se um ambiente de “guerra aberta” onde vencer era imperioso para qualquer um dos contendores. As duas equipas estiveram sempre muito enervadas. A certa altura, por exemplo, Crespo (do Benfica) e Caetano (do Sporting) perderam completamente o controlo e desataram a trocar socos entre si, sendo ambos expulsos. O público invadiu de pronto o terreno de jogo. Com a confusão mais jogadores se socaram mutuamente, num cenário de filme de aventuras… Só a força da guarda republicana, que entrou firmemente em cena, deu azo a que os ânimos se voltassem a serenar… Um pouco mais tarde Artur Augusto deu um forte pontapé no queixo a Quintela (já depois de este ter aliviado a bola) e foi também expulso.

Antes do intervalo Perdigão fez 1-0 para o Sporting na cobrança dum livre. A 2ª parte começou mais calma, com Artur José Pereira em destaque na distribuição de jogo. Após a cobrança dum canto os leões chegaram ao 2-0. Cândido de Oliveira, de cabeça, ainda reduziu, mas o Sporting era o novo campeão.

Ao longo do tempo de jogo sucederam-se várias expulsões de jogadores e mesmo assim a arbitragem de Plácido de Sousa (vida dura para um árbitro, já naquela época) foi considerada branda pela generalidade dos observadores. Num jogo que teve muito pouco de futebol e muito de várias espécies de luta, o Sporting terminaria em glória com uma vitória por 2-1 que lhe proporcionou a conquista do seu 2º Campeonato de Lisboa de Futebol.

De entre os leões destacaram-se os 2 defesas, Artur José Pereira, Boaventura da Silva e Perdigão. No final do jogo, à saída dos futebolistas, um grupo de pessoas apedrejou um dos jogadores leoninos abrindo-lhe a cabeça, e vários espetadores chegaram ao ponto de puxar de revólveres!

No “Diário de Notícias” escreveu-se na altura: “O que se passou foi indecoroso. Virá, bem sabemos, a antiga constante e refervida afirmação de que o Benfica não tem culpa dos seus partidários. Tem culpa. Não se cuida somente de arranjar jogadores que ofereçam probabilidades de ganhar desafios e arrecadar taças; é preciso também que os clubes (e neste caso o Benfica) exerçam junto dos seus jogadores e dos seus associados uma ação moralizadora, ensinando-lhes que em desporto se pode perder com honra e com brio, e se deve perder com calma e serenidade. De muitos desmandos do público há causas que provêm da atitude dos jogadores (…) existe um público que há anos acompanha o Benfica para toda a parte sem que dessa companhia e afinidade possa de alguma forma gloriar-se o clube”.

Infelizmente, o jogo e o Campeonato não acabaram aqui. Tendo perdido ambos os encontros o Benfica insistiu nos seus protestos contra a decisão da AFL ter marcado os desafios de desempate, defendendo que fora o vencedor da prova (questão que teve a ver com um jogo empatado frente ao Vitória de Setúbal…) Uma Assembleia Geral da AFL requerida pelo clube, realizada a 11 de Agosto, chegaria a dar razão ao protesto benfiquista. O Sporting, como é natural, reagiu ferozmente, afirmando que cedia o título de campeão ao Benfica mas que não voltaria a jogar provas da AFL, limitando a sua atividade a jogos internacionais. Perante isto a AFL acabaria por recuar, decidindo a atrbuição final do ceptro ao Sporting, já a nova época dava os primeiros passos…

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