De revelação no “Tour” ao estranho doping na Volta a Portugal

31 de Agosto de 1969. Este foi o dia em que terminou mais uma volta a Portugal a bicicleta, mas a história começa mais de 1 mês antes: Joaquim Agostinho recebeu um convite da equipa francesa “Frimatic” para participar na Volta a França. A Comissão diretiva do Sporting apresentou o assunto à secção de Ciclismo, que não se opôs.

O prestigiado jornal desportivo francês “L’Équipe” deu grande realce a esse facto, classificando o português como “uma atração no Tour”, afirmando que ele tinha “qualquer coisa de primitivo e talvez de selvagem, mas uma enorme vontade e força impressionante de pedalada.”

Agostinho foi chefe de fila da sua equipa, afirmando no início que chegar a Paris era o seu objetivo principal. A verdade é que o português foi um dos grandes animadores da prova e a sua principal revelação. Triunfou em duas etapas e apesar duma queda conseguiu chegar ao fim num brilhante 8º lugar, conseguindo a maior proeza de sempre do Ciclismo português. Os franceses chamaram-lhe “homem de ferro” e foi recebido em Paris como um grande ídolo.

Mais tarde veio então a Volta a Portugal onde Joaquim Agostinho enfrentou um grande desafio pois para ele a competição era de vitória obrigatória. Não era à toa que um ciclista chegava a uma prova como o “Tour”, arrancava um 8º lugar, cotava-se como um dos mais brilhantes concorrentes e ganhava duas etapas, tinha de confirmar esse estatuto no nosso país.

Na verdade, fê-lo categoricamente. Agostinho ganhou com um magnífico contra-relógio final. Mas, surpreendentemente, depois duma apoteótica consagração em Alvalade, surgiu o “golpe de teatro” – o ciclista leonino foi acusado de doping, ao que reagiu afirmando: “Não tomei nada. Querem sujar o meu nome. Só tomei as vitaminas do costume (…) Se era o melhor no contra-relógio, para que precisaria de tomar drogas? Estou desiludido com tudo isto. Nem sei se hei-de continuar… Afinal, não basta vencer as estradas, não basta vencer os adversários. Isto foi uma rasteira muito grande.”

Agostinho acusara anfetamina e metilanfetamina, precisamente os estimulantes então em voga no grande circo do Ciclismo internacional. “É uma intriga para dar cabo de mim! Podem fazer todas as análises, podem dizer o que quiserem. Nunca me conseguirão convencer porque sei bem que estou inocente. Eu só sei que não tomei porcaria nenhuma. Nunca precisei disso, não ia começar logo num dia em que tinha a certeza que seria controlado. Não sou doido, caramba. Sabem lá o que eu tenho dado cabo da cabeça tentando saber se bebi alguma coisa que me tivessem dado… Quando cheguei a Alvalade a única coisa que bebi foi um Sumol, como de costume, mas já nem sei quem mo deu, só sei que não tinha sabor estranho, mas…”

Entretanto ficou a saber-se que durante a colheita de urina no posto médico do Sporting estavam mais de 15 pessoas e, em recurso para a Federação Portuguesa de Ciclismo, o Sporting falou de possível sabotagem e das totais irregularidades na forma como o controlo se fez, mas em vão, pois os controladores garantiram serem nulas as possibilidades de sabotagem. Até Alves Barbosa foi acusado de interferência no caso do doping de Agostinho. Chegou-se ao ponto de afirmar que dera a Agostinho uma garrafa de refrigerante onde estaria a droga. O acusado defendeu-se, referindo que nesse dia e a essa hora estava a mais de 200km de Lisboa, em Montemor-o-Velho…

O processo arrastou-se, e o presidente da Federação Portuguesa de Ciclismo acabou por acusar os sportinguistas de cobardia, desafiando-os a queixarem-se à judiciária. Finalmente foi atribuida a vitória a Joaquim Andrade, desclassificando-se Agostinho.

De realçar ainda que, nessa temporada de 1969 o Sporting e os seus ciclistas brilharam em várias outras competições. Agostinho foi Campeão Nacional de fundo pela 2ª vez e os leões sagraram-se coletivamente Campeões Nacionais de clubes. Joaquim Agostinho e o Sporting venceram também o 1º Grande Prémio Riopele e o 8º Grande Prémio Robbialac. Leonel Miranda e o coletivo leonino foram os melhores no 1º Grande Prémio Famel Zundapp.

Em termos individuais, Joaquim Agostinho foi ainda 5º no Grande Prémio das Nações (uma queda na parte final da prova desfez-lhe o sonho de vitória) e venceu o Troféu Barachi (fazendo equipa com Van Springel), que lhe valeu um prémio de meio milhão de liras.

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