A 1ª verdadeira transferência do Futebol português

15 de Novembro de 1914. Nessa tarde, na 1ª jornada do Campeonato Regional de Lisboa (o 1º que o Sporting viria a conquistar) estreou-se oficialmente pelo clube Artur José Pereira num triunfo por 3-0 sobre o Império.

Corria o mês de Setembro e Artur José Pereira, o melhor futebolista da sua era (considerado por muitos o melhor jogador português de todos os tempos até surgir Travassos), foi castigado por 6 meses pelo Benfica por recusar treinar-se como outro jogador qualquer (vícios de “vedeta” ao seu tempo). Perante esta situação, um Sporting atento e sedento de títulos e glória no seu futebol, recebeu-o no Lumiar. Mais do que isso, ofereceu-lhe uma retribuição certa de 36$ mensais, fazendo dele o 1º jogador não amador da História do futebol em Portugal. Para além do salário, Artur José Pereira tinha outros privilégios, como a preferência sobre o banho quente (um luxo que só o Sporting possuía entre os clubes de Lisboa). Aumentando a afronta, os responsáveis leoninos nomearam o novo “craque” capitão da sua equipa de honra, facto algo estranho e que só poderá ser entendido como desafio aos benfiquistas, quando no clube de Alvalade moravam jogadores da estirpe e antiguidade dos irmãos Stromp, António Rosa Rodrigues ou João Bentes.

Nada poderia impedir, de facto, que o Sporting acolhesse nas suas fileiras o futebolista do Benfica, mas pelo código tácito de conduta que os 2 clubes seguiam reciprocamente, pela própria forma como o processo foi conduzido, o Sporting não ficou muito bem visto em toda a situação… Esta ocorrência acicatou ainda mais a rivalidade entre Sporting e Benfica, pois os vermelhos sentiram-se traídos.

O episódio seria lembrado por muitos anos como um dos principais motivos para a constante “guerra” entre os 2 maiores emblemas de Lisboa.

Mas os reforços do Sporting para a nova temporada não se ficaram por aqui. Boaventura da Silva, um médio-esquerdo de categoria e grande voluntariedade, queixou-se à direção do Benfica de lhe ter sido pedido o pagamento de quotas em atraso, exigindo por isso a demissão… O seu objetivo era ir para o CIF (que lhe ficava perto de casa), mas os dirigentes desse clube sabendo das razões do seu abandono do Benfica não o aceitaram. A direção leonina não atuou da mesma forma, acolhendo-o na sua equipa de futebol, assim como ao guarda-redes Augusto Paiva Simões e a Francisco Pereira (irmão de Artur José), que rapidamente regressou ao Benfica.

Para além de todos estes reforços ex-Benfica, o Sporting viu nesta temporada Jorge Vieira firmar-se na categoria principal (iniciando uma carreira a todos os títulos notável) e surgirem o muito jovem Jaime Gonçalves (que nunca mais sairia da equipa durante muitos e bons anos) e o ponta-esquerda Armour.

No que diz respeito a saídas, salienta-se a de Jaime Cadete, para o Benfica. Aliás, no processo que envolveu a saída de Cadete, os benfiquistas vangloriavam-se de ter abraçado uma conduta bem diferente da dos leões no caso Artur José Pereira. O facto é que já em Março de 1914 o defesa Jaime Cadete (de candeias às avessas com o emblema leonino) surgira em Sete Rios com o objetivo de se mudar para o Benfica. Os serviços benfiquistas enviaram então para o Sporting uma missiva, perguntando se não haveria inconveniente em tornar o defesa sócio das águias. Perante a resposta de que Jaime Cadete cumpria castigo por indisciplina no clube do Lumiar, os benfiquistas não o aceitaram, fazendo-o apenas no final da época. Também por todo este processo os benfiquistas levaram muito “a peito” o caso Artur José Pereira.

Foto: Artur José Pereira, o melhor futebolista das primeiras décadas do futebol português.

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