Gentil Cardoso – O “técnico filósofo”

Gentil Alves Cardoso nasceu a 5 de Julho de 1906 no Recife – Brasil. Nunca foi jogador de futebol e antes de encetar a carreira de treinador (muito novo, com apenas 25 anos) foi engraxador, empregado de mesa, padeiro e militar.

Como treinador passou por inúmeros clubes brasileiros e ganhou a fama de “técnico filósofo” pelas suas muitas “tiradas curiosas”. Foi ele que inventou, por exemplo, a expressão “zebra” para surpresa. Dizia ainda que os craques da bola “tratam a bola por tu e não por excelência” ou que “a bola é feita para rolar rasteira, quanto mais rasteira melhor”.

Nos treinos usava megafone para dirigir os jogadores. Trabalhou nos melhores clubes do Brasil (com diversos títulos no currículo), na própria Seleção brasileira e no Nacional do Equador, antes de chegar a Portugal.

Em Junho de 1963 começou a falar-se do seu nome para treinador do Sporting. A 8 de Julho do mês seguinte chegou a Lisboa afirmando: “Sou o técnico mais antigo do Mundo. Quando partir quero deixar escola”. Para o começo dos trabalhos em Alvalade trouxe Jair Raposo para adjunto e supreendeu logo num Torneio de pré-temporada, em Bilbau, ao acusar publicamente o seu pupilo Morais de desinteresse e falta de brio.

Com o triunfo claro na Taça de Honra da AFL (frente ao Benfica) as coisas pareceram encarreirar, impressão que mais se adensou com a eliminação dos italianos da Atalanta na 1ª eliminatória da Taça das Taças. No entanto, apesar da boa campanha europeia, os leões cediam de forma tremenda no Campeonato.

Numa entrevista concedida ao jornal “A Bola”, ainda em Novembro, Cardoso pediu para que o seu trabalho só fosse julgado no dia 31 de Julho de 1964, data do fim do seu contrato, acrescentando: “Não sou criança de peito para abrir luta contra a imprensa, que é a força mais poderosa do Universo”. Poucos dias depois o Sporting batia um recorde (que ainda perdura) nas competições europeias ao bater o Apoel Nicosia por 16-1.

No Campeonato as coisas corriam pessimamente. Os adeptos leoninos pediam a substituição do treinador. Em Fevereiro, Anselmo Fernández entrou para secretário técnico, mantendo-se Cardoso como treinador de campo, ao que se disse, porque o clube lhe teria de pagar 160 contos pela rescisão…

Após a derrota por 4-1 em Manchester para a Taça das Taças, Gentil Cardoso fez o seu último jogo como treinador a 8 de Março de 1964 num empate em casa (1-1) frente ao Olhanense. Os adeptos não aguentaram a afronta do mau resultado e o presidente Viana Rebelo viu-se mesmo obrigado a despedir o treinador. Gentil Cardoso ficou sentido: “Quando fui destituído já não tinha nada com o peixe. Já estava de parte. Não saí por causa da indemnização. Disseram: deixa estar o homem! E o homem, coitado, ficou. Mas, no dia do estouro da boiada, quem pagou fui eu. Eu fui Júlio César, mas alguém foi Brutus…” Acabou por deixar os leões nos quartos-de-final da Taça das Taças, no 3º lugar do Campeonato Nacional e nos oitavos-de-final da Taça de Portugal.

Após a sua saída, Anselmo Fernández tomou conta da equipa que viria a triunfar na Taça das Taças, com quota parte do sucesso a ter de ser reconhecida, indubitavelmente, a Gentil Cardoso.

Passou ainda por Bangu e Vasco da Gama, e pouco tempo depois começaram os problemas de saúde… Morreu a 8 de Setembro de 1970 no Rio de Janeiro. À entrada para o Hospital, de onde já não sairia com vida, afirmou ao médico que o ia tratar: “Doutor, estou entrando na vertical. Vê se não saio na horizontal, porque técnico de futebol não pode trabalhar nessa posição. Não fica bem”. Um filósofo até aos últimos momentos de vida…

GENTIL CARDOSO como treinador do SPORTING
ÉPOCA J V E D GM GS % TÍTULOS
1963/64 29 18 6 5 78 32 72,4 TT

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