O último golo, o último jogo, a festa de homenagem e as razões do abandono de Peyroteo

11 de Setembro de 1949. Na 2ª jornada da Taça Preparação da Associação de Futebol de Lisboa (uma prova de pré-temporada que o Sporting viria ganhar), numa vitória por 8-0 sobre o Oriental, em Alvalade, Peyroteo marcou pela última vez (que não oficialmente – o derradeiro golo oficial fôra em Junho frente ao Torino para a Taça Latina) com a camisola do Sporting.

Nessa partida estreou-se o extremo Rola, vindo do Estarreja. O último golo de Peyroteo (marcou 3 nesta tarde) foi o 7º da equipa, aos 59 minutos de jogo, concluindo como só ele sabia um centro de Rola. Em “A Bola”, escreveu-se que: “Sem se ter creditado duma grande tarde, Peyroteo fez crer que ainda faz falta ao Sporting”. E se fazia…

A 25 de Setembro o notável avançado alinhou pela última vez, no Sporting-Atlético CP (2-1) para a mesma competição. Na véspera da festa de despedida, em entrevista ao jornal “A Bola”, o agora exclusivamente comerciante desabafou: “Não posso corresponder às exigências de preparação dum jogador de futebol que queira manter-se em forma e ser útil ao seu clube e à modalidade que pratica. Os treinos tomam muito tempo e requerem um estado de espírito que nem sempre é favorável. Daqui resultam lesados: eu, porque abandono o estabelecimento, quando lá devia estar; o clube, porque espera um rendimento que é falseado, criando-se, até, mal-estar nos restantes companheiros de grupo, que pensam, logicamente, que houve uma situação de favor, mais acentuada ainda quando se trata dos estágios da Seleção. Além disso, ou por consequência disso, quando entro em campo vou cheio de vontade de jogar mas depois de meia dúzia de pontapés na bola apodera-se de mim um enfastiamento inexplicável…”

A festa de despedida realizou-se a 5 de Outubro, uma partida perante o Atlético Madrid (2-3 – bis de Albano). Inabalável, Peyroteo justificou-se assim: “Fui soldado nas fileiras do desporto nacional e um soldado não foge ao cumprimento do seu dever, seja qual for e em que circunstâncias for! Mas, de hoje em diante reconheço que sou um soldado velho…”. vídeo

Posteriormente se saberia que foram outras as razões do abandono: endividado, decidiu fazer a sua festa de despedida com o fito de angariar os cerca de 100 contos de que precisava para honrar os seus compromissos. Ele próprio pagou as 100.000 pesetas de cachê ao Atlético de Madrid e, no final do balanço, conseguira juntar dinheiro para pagar todas as suas dívidas. Cândido de Oliveira, a quem coube, na festa de despedida, o elogio público do jogador, premonitório, aventou: “A figura de Peyroteo, como avançado-centro correto e lealíssimo, duro batalhador e extraordinário marcador de golos, começará a ganhar maior prestígio e só atingirá plena grandeza perante o juízo dos homens à medida que o tempo passar — e a sua falta for cada vez mais sensível e irremediável. Peyroteo deixa hoje o futebol. E parte em plena glória. Deixa atrás de si, nos retângulos do jogo, uma lembrança indelével. Foi sempre um jogador exemplar. Correto. Leal. Digno. Verdadeiramente modelar!”.

Cândido lamentou também que a direção do Sporting não tivesse percebido que com pouco mais de 200 contos poderia ter segurado Peyroteo mais um punhado de anos… “Peyroteo conseguiu ser, na opinião geral, o mais notável de todos os avançados-centro devido à sua extraordinária propensão para a tarefa principal desse posto, e que é, como sabemos todos, o poder de remate à baliza (…) Não sei o que mais me habituei a apreciar em Peyroteo — se a permanente fidelidade ao seu único clube, se a sua irrepreensível conduta em campo, se o seu extraordinário mérito como avançado-centro”.

Foto: Peyroteo (na festa de homenagem) com Ribeiro Ferreira, Palma Carlos e Góis Mota.

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