O brilho de Manecas no regresso dos espanhóis a Portugal

31 de Janeiro de 1945. Há já alguns anos que não se assistia em Portugal a jogos com as melhores equipas espanholas, facto tão em voga em tempos não muito distantes. Depois do Sporting se ter deslocado a Espanha em Outubro (no dia da Raça) onde perdeu por 3-1 com o Atlético Aviación (o clube que viria a dar no Atlético de Madrid) – numa viagem com um grande significado social, os espanhóis retribuiram a visita ao deslocarem-se a Lisboa para defrontar os leões no final do 1º mês de 1945.

O treinador do Atlético madrileno era o maior guarda-redes espanhol de sempre até à data, Ricardo Zamora. A partida tinha um caráter muito especial, prova disso a presença do Presidente da Direção Espanhola dos Desportos e do Presidente da Federação Espanhola de Futebol em Lisboa. Os 2 países passavam por um período de reatamento de relações desportivas. Visava-se novas realizações de jogos entre Portugal e Espanha num futuro próximo. Jacinto Quincoces, selecionador espanhol, também marcou presença, o que reforçou a importância do prélio.

O jogo foi coberto pela imprensa nacional como se a partida da época se tratasse. O Sporting alinhou com: Azevedo; Álvaro Cardoso e Manecas; Veríssimo, Octávio Barrosa e Nogueira (Garcia Ramos); Jesus Correia, Canário, Peyroteo, António Marques (Ismael) e João Cruz (Albano).

Os leões fizeram simplesmente a melhor exibição da temporada dando uma cabal resposta quando tal era mais necessário. Logo aos 7 minutos, a passe de Peyroteo, Jesus Correia rematou bem, a bola bateu num contrário e traiu Ederra. Estava feito o 1-0.

O Sporting jogava largo e em velocidade, impedindo os espanhóis de mostrarem uma grande reação ao tento sofrido. Ambas as equipas se dispuseram abertamente ao ataque, mas só perto da meia-hora Azevedo foi chamado a fazer a 1ª defesa. Os espanhós ameaçaram então um pouco mais, e no último quarto-de-hora da 1ª parte obrigaram a defesa leonina a trabalho aturado. Quase no descanso Azevedo e Manecas chocaram, lesionando-se ambos…

Para a 2ª parte os 2 jogadores sportinguistas magoados surgiram de cabeça ligada e Albano apareceu no lugar de João Cruz. Os espanhóis entraram de rompante e foi com surpresa que Jesus Correia, aproveitando uma bola perdida na área contrária, apontou certeiro fazendo o 2-0 aos 51 minutos. O público aplaudiu longamente, mas os espanhós não desistiram, e 5 minutos depois Juncosa reduziu para 2-1.

O Sporting não se quis remeter à defesa, atacando por vezes com muito perigo, e Peyroteo esteve muito perto de marcar mas a bola acabou por sair para fora. O jogo estava vivíssimo e aos 66 minutos, perto da área espanhola, os portugueses trocaram a bola entre si até que em última instância, com ela no ar, Peyroteo aplicou-lhe sem preparação um remate fortíssimo que deixou Ederra e os seus companheiros boquiabertos. Era o definitivo 3-1.

Até final a partida foi equilibrada, mas os leões estiveram sempre mais perto que os seus adversários de voltar a marcar.

Para Jacinto Quincoces, “Manecas (foto de arquivo) foi o melhor homem em campo”.

Barreira de Campos, presidente do Sporting, afirmou: “Estou muito contente com os meus rapazes”

Joaquim Ferreira, treinador que se estreava no comando do Sporting, referiu: “O trabalho do grupo satisfez-me, jogou-se bem, com ligação, e os avançados corresponderam à minha pretensão de rematarem assim que chegassem à grande área. Manecas fez uma exibição primorosa e impressionou os espanhóis, que me dececionaram um tanto”.

Ricardo Zamora disse que “O Sporting jogou bem, todos cumpriram, mas Manecas foi o melhor. Não jogámos o que somos capazes”.

E mais uma vez o Sporting levantou bem alto o seu emblema, num confronto internacional que deu brado.

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